Querido diário,
Hoje durante a aula lemos um texto sobre lembranças, recordações, fotografias, cartas. Era basicamente sobre as crianças terem acesso a certas lembranças. Lembranças que podem ser contadas por avós, pais, ou então através de fotografias ou até mesmo cartas.
Então comecei a pensar, o que eu terei para contar para meus filhos? Para meus netos? Quero que meus filhos corram pela casa, mexam nas minhas caixas e encontrem infinitos objetos que significaram muito para mim.
Quero que eles encontrem as cartas de amor que enviei ao pai deles, as milhares de cartas que escrevi ao pai deles, mas não enviei na época. Quero que encontrem as fotos das suas madrinhas, fotos nossas nas pousadas que costumamos fazer uma na casa das outras. Fotos que registram os vários dias em quem falamos de futuro e falamos sobre uma ser madrinha do filho da outra. E então no futuro seus afilhados estariam vendo fotos de suas madrinhas com apenas dezessete anos. Jovens, sem rugas, sem cabelos brancos...
Quero que eles encontrem as primeiras fotos que tirei com seu pai e digam: "nossa mamãe, como você era bonita", quero ouvir eles dizendo: "papai, por que você mordia a mamãe?", quero ver eles imitando as nossas fotos e rindo.
Quero poder olhar para o meu lado e ver ali, sentado naquele sofá vermelho o Gabriel. O meu Gabriel. Aquele mesmo de anos atrás. Com alguns fios de cabelo branco, com a barba grandinha e com alguns fios brancos, mas ainda assim, meu. Quero poder sorrir e dizer quer não foi em vão todas as vezes que eu aceitei seus pedidos de casamento, afinal, estaríamos exatamente da maneira que sempre sonhamos: casados, com os cinco filhos e na nossa linda e grande casa.
É diário, quem sabe daqui alguns anos eu não volto falando que tudo isso se realizou... É o meu maior desejo. Acredite!
Renata Rigon"
Anos e anos e anos após essa última escrita no diário, Benjamin encontra uma caixa minha com alguns cadernos, cartas e fotografias. Quando resolvi ler o meu diário, logo pensei em escrever na última folha dele que ainda estava em branco:
"24 de Outubro de 2030
Querido diário,
Anos sem passar por aqui não? Perdi até a prática de como escrever, mas acabei de reler algumas anotações e lembra quando eu falei sobre me ver no futuro com o Gabriel e com as crianças? Foi o que aconteceu agora. Estamos sentados na sala e eu estou vendo a seguinte cena: Gabriel está ajudando as crianças a lerem as nossas cartas de amor, o Benjamin está querendo imitar as fotos com a sua irmã Sophia, os outros três estão sentados ao lado de seu pai rindo das fotos das madrinhas, dos padrinhos, das várias coisas que encontramos na caixa.
É diário, olha só como eu estou... Sentada no sofá vermelho, olhando para o meu Gabriel, sim, aquele mesmo de anos atrás, aquele pelo qual me apaixonei e continuo apaixonada, o qual me casei após inúmeros pedidos de casamento, o qual constituí uma família. É diário, estou com quase trinta e sete anos e posso me sentir velha, mas é tão bom poder olhar e ver que estou exatamente da maneira que sempre sonhei. Com meus filhos, com meu marido, na casa que nós sempre sonhamos em ter.
E agora diário, eu encerro minha anotação, mas quem sabe daqui alguns anos a pequena Sophia não volta para falar contigo? Essa é uma prática que eu vou ensina-la, afinal, quantas coisas já não escrevi aqui? Quantos segredos só você e ele souberam? Quantas lágrimas e risadas já não passaram por aqui? Seria lindo se minha filha fizesse o mesmo.
Então, não é um adeus, é apenas um até logo. Em breve nós nos veremos diário. Tenho que ir... Tenho cinco crianças me chamando e o pai delas também.
Até breve diário,
Renata Rigon de Lourensi (sim diário, meu nome de casada, que tal hein?)"

1 comentários:
Que coisa mais linda Re! "Que assim seja..."
PS.: Estou comentando com algumas lágrimas nos olhos.. Você escreve tão bem, toca demais meu coração!
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